quarta-feira, 26 de abril de 2017

Canção doce (Leïla Slimani)











O dicionário diz-nos que solidão traduz o estado do que está só. Isolamento. Um ermo. Um lugar despovoado.
Leïla Slimani tem solidão impresso em cada canto da sua «Canção Doce» e Louise, a ama perfeita aos olhos de todos, personifica esse lugar despovoado das pessoas mal amadas.
«Canção Doce» é a história de um casal, dois filhos pequenos e a sua ama, Louise. A junção de todos eles revelará ao leitor a urgência dos dias atuais, o tudo querer, a pressa das horas, as ambições desmedidas e as prioridades distorcidas. O resultado sairá, claro está, enviesado nas leis do que seria suposto. Eu chamo-lhe a teoria do elástico: vá puxando, até ao dia.
Myriam e Paul são um casal aparentemente feliz, que após o nascimento dos filhos, viverá a conhecida fase de adaptação e reorganização que tal implica. Os horários não serão os mesmos, os encontros com os amigos serão adiados muitas vezes, o descanso passará para um segundo ou terceiro plano e, depois, as aspirações profissionais parecem elas, também, sofrer um rumo diferente.
Myriam, mãe preocupada, decide então dedicar-se de corpo e alma à arte de ser mãe. Esticou o seu elástico até não poder mais, com prioridades circunscritas à maternidade quase patológica de que apenas ela seria a pessoa indicada para assegurar o bem-estar da menina. E do menino, nascido pouco tempo depois.
Um dia, porém, no reflexo de Paul, cada vez mais de encontro às suas próprias aspirações profissionais e ao delineamento do seu próprio caminho, Myriam quis o mesmo. Exigiu o mesmo. Afinal, tinha tanto direito quanto Paul a exercer as suas excelentes competências de advogada, outrora a melhor e mais dedicada aluna de Direito.
Não pretendo crucificar o leitor com as mazelas que o nascimento de um filho traz, inevitavelmente, à vida de um casal mas é, precisamente, nesse seio disfuncional de prioridades e anseios que Myriam e Paul decidem ter chegado a hora de contratar uma pessoa para cuidar das suas crianças enquanto estes pudessem, na mesma medida, dedicar-se às suas carreiras profissionais.
Louise surge nas suas vidas como a verdadeira fada do lar. E como diria Fernando Pessoa, se primeiro se estranha, acreditem, que depois de uns dias com Louise, o ambiente tranquilo, arrumado e sereno entranhou-se facilmente em todos eles.
O problema das pessoas aparentemente perfeitas é andarem de mão dada com uma espécie de invisibilidade. Não há espaço ao erro, a delicadeza de cada gesto é tanta que, por isso mesmo, nem se nota. E espera-se, por isso mesmo, apenas mais e mais perfeição.
Gradualmente, numa espécie de vórtice aterrador, Myriam e Paul assumem Louise como parte integrante dos seus dias, da perfeição da casa e inclusivamente, da disciplina exemplar transmitida aos filhos. Quanto mais Louise fazia, por um amor incondicional que lhe cresceu pelos meninos e pela família, mais o casal assumiu a implacabilidade da frágil mulher. A perfeição tem destas coisas.
O que ninguém sabe, porém, é que a perfeição veste-a Louise como um desses escapes a olhos desatentos, de quem tanto procura um lugar que a dignifique pelo que é, não pelo que faz, e muito menos por um passado a que não se apega. Que não deseja. Que não sente seu.

Um livro brilhante sobre o descaramento do egoísmo, os afetos distorcidos, os estatutos engavetados,  a solidão e a necessidade de amor. No fim, essa necessidade, quase sempre, caminha no sentido oposto daquela que seria uma verdadeira canção doce.

Recomendo com todas as mãos. Recomendo a todos os bons leitores. Recomendo a toda a gente!
 
 
Seja feliz, aqui

 
O meu enorme obrigada à Penguin Random House, pela oferta.

terça-feira, 25 de abril de 2017

O Senhor Camilo



"Que animal é este?
Um camilo?
Não será camelo?
Ah! É capaz de ser...!"
 
Uma pérola de 6 anos a revelar o poder de uma única letra.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nada (Carmen Laforet)



















«Nada» é o romance que revolucionou a literatura e agitou a sociedade espanhola do pós-guerra.

Com a intenção de estudar e mudar de vida, Andrea parte rumo a Barcelona, hospedando-se na Rua de Aribau, na casa da sua avó e tios.
Esta será a sua história. E a história dos outros. Que contempla, apreensiva, desprendida de si mesma, ausente e presente simultaneamente numa dor que desconhece. Mas que lhe procura a origem nos passos, deambulantes, que dá pela cidade.

Carmen Laforet vai encher-lhe a alma. A sua escrita soa a uma espécie de desconsolo. Um desconsolo quente, que tudo diz numa leveza tal, que comove e promete fidelidade até ao fim da história.
“(…) apesar de todos aqueles seres trazerem consigo um peso, uma obsessão real dentro de si,  à qual poucas vezes aludiam diretamente.”

O ambiente na casa era pautado pela fome, pela secura dos gestos e amargura de afetos, que não se dizem, em todos eles. Desde a avó, pequena, frágil e em constante pranto, ao tio Juan e Gloria, Angustias e o enigmático Róman.

No fim da Guerra Civil Espanhola, aquele contexto azedo e autoritário está espelhado fielmente em cada personagem. Também a fragilidade e o cansaço. A fome de Andrea, dentro e fora.

Mais do que uma história sobre uma jovem que decide estudar em Barcelona, largando tudo para tal, Carmen Laforet, desenhou dentro daquele contexto histórico, personagens personificadas de um período ideológico autoritário como foi o Franquismo. Falo de Juan mas, particularmente, de Román.

As personagens viverão os seus temores, e na sombra, Andrea crescerá sem qualquer alicerce que não seja correr por si mesma, aprender por si mesma:


“Parecia-me que de nada vale correr, se vamos sempre pelo mesmo caminho, fechado, da nossa personalidade. Alguns seres nascem para viver, outros para trabalhar, outros para ver a vida. Eu tinha um pequeno e mau papel de espectadora. Para mim, era impossível sair dele. Impossível libertar-me. Uma tremenda angústia foi, nesse momento, a única coisa real para mim.”
 
Uma história onde o desejo de vingança impera, mas também o amor dará os ares saudáveis da sua graça. Uma história de superação, de resiliência e de crescimento.
Andrea, personagem inesquecível, mostra-nos um mundo triste, solitário e muito sombrio, mas ainda assim, com brechas a dias novos, carregados de promessas.
“Desci as escadas lentamente. Sentia uma viva emoção. Recordava a terrível esperança, o anseio de vida com que as subira pela primeira vez. Agora partia, sem ter conhecido nada daquilo que, confusamente, esperava: a vida na sua plenitude, a alegria, o interesse profundo, o amor. Da casa da Rua de Aribau, não levava nada comigo. Pelo menos, assim o julgava eu, então. (…) Barcelona inteira ficava para trás.”  

 
Boas leituras.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro
























A minha proposta para este Dia Mundial do Livro passa por um dos meus livros da vida:
«Gente Independente» de Halldór Laxness.
Curiosamente, este senhor faria hoje 115 anos.

sábado, 22 de abril de 2017

O Regresso de João Tordo



















Uma das melhores notícias do mundo editorial: João Tordo está de volta. 
Pela mão da «Companhia das Letras» (Penguin Random House) teremos, agora, a ambicionada oportunidade de conhecer o fim de uma história, asseguro-lhe, inesquecível.

Faça um favor a si mesmo e reserve já o seu, aqui

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Palavras mal colocadas #6

 
 




Esta é mesmo um pequeno ódio de estimação. Desde a fonética, ao contexto usado, a tudo. Tudo me irrita na colocação, habitual, da dita.

"Olá! Como estás?"
"Estou no relax..."

(que bar é esse filho?)


Não me perguntem porquê, mas esta resposta irrita-me solenemente.
Como diria a querida Beatriz, todos nós carregamos as nossas cruzes ;)