sábado, 30 de julho de 2016

Loucos somos todos


"Afinal, quem é que tem a pretensão de não ser louca?... Loucos somos todos, e livre-me Deus dos verdadeiros ajuizados, que esses são piores que o diabo!"
 
Florbela Espanca

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A Experiência (Ferreira de Castro)








Foi com base no meu desafio literário deste ano, «Ler(-te) em Português», que surgiu a feliz oportunidade de me cruzar com Ferreira de Castro. Há muito que o autor se me afigurava na vontade, mas a persistência de a levar adiante, essa, ficava pelos dias mornos, de quem não se decide.

Em contrapartida, mão decidida tinha Ferreira de Castro para dar e vender. «A Experiência» é um livro que tem de ser obrigatório nas estantes de todos nós, não apenas por se tratar de uma bonita história, mas pelo marco que impera em termos sociais. O enredo acaba por ser um feliz casamento com o título, bem intrincado, numa experiência de gentes mais e menos afortunadas, divididas pelas sentenças que um Deus, ora bem ou mal disposto, decide propor e semear pelas aldeias.
 
Esta é a história de Januário e Clarinda, ainda pequenos, residentes num Asilo, instituição essa criada por Sampaio Mendo que com ele carregava as ânsias de um novo método de ensino, igualitário e capaz de promover e potenciar a liberdade de pensamento. Já se sabe, porém, e como o próprio o viria a dizer, crianças de asilo levam com elas rótulo de tristeza e assim foi com aqueles dois.
 
O Asilo, entretanto transformado em prisão, viria a acolher novamente, anos volvidos,  Januário, agora ladrão e perdido num mundo que não se entende. Clarinda, vítima de um amor certeiro e, como tal, traiçoeiro desde que nasceu, a empurrou para o seu lado mais negro.
 
Mas quis o destino, tal como o fado, que o reencontro se desse trazendo com ele as memórias de infância e o pequeno amor que ainda tudo tinha para se continuar a dar. E deu. Mas não pense o leitor que a história de Ferreira de Castro se cinge ao amor destes dois. Nada que se lhe pareça. Percursor do neo-realismo, o autor enfatiza a predominância da sociedade como resistência máxima à felicidade dos que não nasceram em berço de ouro. As barreiras autoimpostas por hierarquias aparentemente invisíveis, e tão normais, abafam os sonhos mais gritantes do comum mortal, do asilado, porque se lhe dão teto e comida, é já esmola de sobra.
 
Envolto no julgamento de Januário, o autor polariza diversos pontos pertinentes entre as mais diversas personagens, mediando o foco de importância entre o ser individual confrontado com o ser social, cujo peso deste último é, irrevogavelmente, o maior e o que deve prevalecer sob qualquer circunstância, numa aclamada subversão do espírito.

Acredito que se depreende, desta crítica, o entusiasmo que se me ficou entranhado com a leitura. Ferreira de Castro, além do peso literário que assume no nosso país, e além fronteiras, demarca-se igualmente por uma história de vida ímpar, de enormes dissabores e experiências que, naturalmente, contribuíram para a sua soberba genialidade.


Escusam de perguntar.
É óbvio que recomendo.
 

 
 Venha agora o desafio de Agosto. Sim, já há autor escolhido.
Aguardem!
Boas leituras

terça-feira, 26 de julho de 2016

Há Penguin no Correio!

















Não um, não dois, mas três livros chegaram pela simpática mão da Penguin Random House (Suma de Letras, carimbo «Sob Suspeita»).
Todos eles, sem exceção me despertam uma enorme curiosidade.
Em breve, opiniões destes três meninos.
 
Um enorme obrigada à Penguin Random House pela amabilidade.


 

segunda-feira, 25 de julho de 2016

A culpa é da Beatriz

Pois é. A culpa é toda da Beatriz quando me avisou dos descontos de 40% da minha Editora preferida de sempre: Cavalo de Ferro.
E cá estão as "asneiras" fantásticas:
  • Mistérios (Knut Hamsun)
  • Arde o Musgo Cinzento (Thor Vilhjálmsson)
  • Paraíso e Inferno (Jón Kalman Stefánsson)
  • Nada (Carmen Laforet)
  • Um, Ninguém e Cem Mil (Luigi Pirandello)


Estante de Serviço #4

 
Esperança, perder a
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Ratos e Homens
John Steinbeck

Nunca subestime a importância da esperança. Viver sem esperança é viver sem alegria nem consolo (...). Conseguimos lidar com quase tudo - prisão, doença grave, exílio forçado - se tivermos esperança de que, um dia, tudo passará e voltaremos a casa.
Se não acredita nisto, é evidente que nunca leu Ratos e Homens. George e Lennie são trabalhadores itinerantes. Chegam a um novo rancho, «fazem uns biscates», depois vão à cidade e gastam tudo. Sem família, sem casa, sem nenhum horizonte na vida, consideram-se «os mais solitários do mundo».
Só que eles são diferentes - como diz George continuamente ao enorme, lento e deficiente mental Lennie, para o animar e para se consolar a si mesmo. Porque, ainda por cima, George tem de tomar conta de Lennie, e Lennie, que gosta de coisas felpudas e não conhece a sua própria força, arranja sarilhos aonde quer que vão. Um dia, George e Lennie hão de acertar no jackpot e ter dinheiro suficiente para comprarem uma casinha e uns hectares de terra onde irão criar uma vaca e galinhas e «viver da terra». Quando chover sentar-se-ão à lareira a escutar a chuva no telhado. E terão coelhos, que Lennie irá apanhar para comer - e para ter em casa.
Quando George já não acredita na possibilidade deste futuro, tudo se torna triste e sem sentido - porque o seu sonho partilhado era o que os fazia continuar. Todos nós temos um Lennie dentro de nós que precisa de ouvir alguém «falar dos coelhos» de vez em quando. E podemos fazer as vezes de George e falar dos coelhos para animar outra pessoa.
 
 
 
Para mim basta dizer que é John Steinbeck. Este pequeno livro é mais uma pérola deste autor inesquecível. Um dos meus preferidos e estimados de sempre.
Boas leituras.
 

domingo, 24 de julho de 2016

Gavetinhas

 
 
Costumo dizer às crianças que temos uma espécie de gavetinhas na cabeça e que é lá que guardamos as nossas memórias. As nossas recordações. É lá que que se encontram as respostas de sabermos o que comemos no dia anterior, o porquê de gostarmos tanto do nosso cão ou da nossa gata. Também é lá que se encontram as raízes das nossas emoções. Ora se está com cara de poucos amigos, ora brilham os olhos porque lá dentro algo nos chocalha as entranhas e nos faz querer muito, e muitas coisas. Quando divago, eles, mais resolutos, definem questionando: "Ah! A Beatriz faz os meus olhos brilhar, muito mais do que as cenouras. É porque gosto dela, não é?"
Se vasculharmos as nossas gavetinhas, estará lá a Beatriz ou o Tiago, e momentos de brincadeiras que a pele torrou ao sol na prova certa dos dias perfeitos, cujo tempo não passa nunca.
E o bom dessas gavetinhas é a possibilidade de lá se poder voltar, sempre que se quiser, mantendo vivo aquilo que foi, aquilo que ainda é, o que poderá não ser ou o que forçosamente deve permanecer.
 
 
 
 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Get over it

 
Já não sei se gosto mais da menina ou do coelho. Muito bom.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Happy Girls


quinta-feira, 14 de julho de 2016

Butcher's Crossing (John Williams)














John Williams surpreendeu ao fazer-se surgir das cinzas, inesperadamente, com o tão aclamado «Stoner». Pessoalmente, arrebatou-me completamente. Hoje, fico como o Marco Paulo e os seus dois amores. Honestamente, a ter de escolher qual das duas obras gostaria mais, não conseguiria dizer-vos.
 
Por muito que se apontem diferenças, nítidas, em ambos os livros, consigo perfeitamente notar as personagens cinzentas com que outrora o leitor (se é um desses afortunados que já se cruzou com Stoner) confrontou na primeira obra editada em Portugal.
 
Andrews decide largar tudo e ruma para Butcher's Crossing, terminando junto de Millers, caçador de búfalos, encimando aquela que seria, mais do que uma aventura, a jornada que mudaria irremediavelmente os contornos da sua vida, até então, sem linhas firmes.
 
Vejamos, a história não é mais do que sobre um homem que desiste do seu rumo fixado na rotina típica de uma vida ordenada para, momentaneamente, partir numa caçada de búfalos na tentativa de se reencontrar a si mesmo.
 
É nesse reencontro que o leitor cruzará com personagens irremediavelmente partidas por dentro. Não é só Millers e o seu sonho antigo de percorrer aquela determinada zona de caça, em guerras antigas com McDonalds, cujo orgulho lhe assume a bravura do próprio nome, mas também Charley Hoge e o receio escondido na mão que a neve, um dia, fez questão de lhe roubar. O alemão Schneider, que também os acompanhará ao longo de vários meses, mostrará o lado destemido da vida e as consequências disso mesmo.
 
Numa amálgama de várias intempéries inesperadas, para lá da meteorologia, John Williams, com este grupo de personagens, permite relembrar a sensibilidade da sua escrita e os fantasmas que, tão bem, invoca em cada um deles. Fantasmas que lhe condicionam cada passo, cada movimento, cada decisão, na certeza de um amanhã diferente mas nunca presente: um futuro sempre imerso num nevoeiro frio, distante, de quem se procura fugindo irremediavelmente.
 
Na personagem principal de Andrews, a insustentabilidade do coração revela-nos uma história de arrependimentos, mágoas e orgulhos mal colocados. E como tudo na vida, a desarrumação, a longo prazo, gera o caos. Dentro ou fora do espírito, há um caos que começa. Imaginem quando esse caos se instala no espírito.
 
Tem de arder.
Tem de se exorcizar.
E que comece, depois, um amanhã.
 
 
Continuo encantada com todo este, quase, misticismo em torno das obras de John Williams. Em cada uma delas encontro essas sombras, essa inquietude que assusta e prende, simultaneamente.
 
Sublime.
Um livro que recomendo com muitas, muitas mãos.
 
Boas leituras.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

New Demons


terça-feira, 12 de julho de 2016

Make it happen

 
Fonte: Pinterest

domingo, 3 de julho de 2016

A Rapariga que Sabia Demais (M.R.Carey)











«A Rapariga que sabia demais» de M.R. Carey, nas livrarias portuguesas pelas mãos da Editora Nuvem de Tinta (Penguim Random House) é um livro cheio de emoções fortes e originalidade.
Esta é a história de um mundo, tal como o conhecemos, a findar com base numa infeção que  transforma as pessoas nos chamados vorazes, capazes de matar e alimentarem-se dos humanos.
 
Numa base militar, um grupo de humanos tenta encontrar a cura para tal infeção, em ambientes austeros e de enorme ansiedade por parte de todos. Um conjunto de crianças que revela sintomas idênticos aos vorazes mas que, diferente dos outros, ainda detêm capacidade para pensar, sentir e reagir, são o grupo de controlo da Dra Caldwell, investigadora determinada a chegar a um resultado efetivo e em prol da continuidade do mundo como ele sempre se lhe afigurou.
 
A juntar-se à Dra. Caldwell, temos o sargento Parks e a Psicóloga de Desenvolvimento, Justineau, incapaz de tratar com indiferença o grupo de crianças com as quais estabeleceu uma forte empatia. O ambiente isolado, o tratamento indiferente que lhes é dado, sublinha a necessidade da Psicóloga em estreitar laços com aquelas crianças, independentemente daquilo que são. Do que representam.
 
E mais do que todas elas, há Melanie. Uma criança que sabe demais. Com uma inteligência prática e emocional fora de normal, Melanie consegue perceber e interpretar as emoções dos adultos na perfeição, bem como a noção clara das suas limitações e da sua estranha condição.
 
No momento em que uma catástrofe acontece, levando a que todos sejam arrancados da base e atirados para a insegurança das ruas, já nada é seguro. Começa assim, neste livro de M.R. Carey, uma enorme aventura e uma constante luta pela sobrevivência.
 
O leitor entrará, assim, em lutas inimagináveis, ferozes e vorazes. Acima de tudo, inesperadas. Com o instinto de sobrevivência conectado até ao limite, tudo farão para compreender, para lutar e para chegar ao bom porto das descobertas e da esperança ambicionada, mesmo que assombrada por um passado que não se pode alterar.
 
Boas leituras.
 
 
Um enorme obrigada à Penguin Random House pela oferta.
 


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Ler(-te) em Português de Julho

Julho, minha gente!
O tempo continua a voar e este mês quente tem na manga Ferreira de Castro: um dos autores portugueses que mais curiosidade tenho para conhecer. Não me perguntem porquê.
 
Vamos ver. E ler!
 
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Poderão ler mais informações sobre este desafio pessoal, aqui
 
Ler(-te) em Português de Janeiro, aqui
Ler(-te) em Português de Fevereiro, aqui 
Ler(-te) em Português de Março, aqui
Ler(-te) em Português de Abril, aqui
Ler(-te) em Português de Maio, aqui
Ler(-te) em Português de Junho, aqui