sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O Jardim das Borboletas (Dot Hutchison)

«O Jardim das Borboletas» de Dot Hutchison irá, certamente, provocar-lhe uma revolta nas entranhas. O leitor viverá numa eterna curva de Gauss cujas probabilidades de consternação, irritação, impotência e uma náusea sem fim, serão altamente garantidas.
 
Não estamos a falar de um livro que não supere expectativas. Não é bem essa a questão. Estamos, antes, a falar de um livro que pela temática em si, choca e oprime.
A história começa com um relato policial sobre a existência de um misterioso jardim com direito a borboletas e um empenhado Jardineiro. Esqueça agora os filmes da Disney porque: 1) as borboletas são raparigas e 2) o Jardineiro guarda-as em cativeiro para abusos de toda a espécie. 
 
Independentemente da escrita pouca madura de Dot Hutchison, esta é uma história que o prenderá pela curiosidade. São muitas as pontas soltas capazes de o fazer refletir: a personalidade do Jardineiro, dos seus filhos e, sobretudo, das meninas que representam as borboletas.
 
Ao mais astuto não faltarão as questões perante algumas atitudes e condutas por parte das raparigas, mais especificamente, a personagem principal, Inara.
Com é possível, perguntariam, uma jovem violada constantemente, entregar-se de ânimo leve ao filho do Jardineiro? Em que o sexo com ele chega a ser "(...) divertido."?
 
É possível sim. A Psicologia poderá explicar isto com base em duas Síndromes similares: A Síndrome de Estocolmo (simpatia gerada na vítima pelo abusador) e a Síndrome de Lima (inversamente, o abusador desenvolve sentimentos de afeto pela vítima). O ponto alto deste livro, pessoalmente, é que é possível interpretar e localizar as duas síndromes na história.
Há, no entanto, um objetivo particular na Síndrome de Estocolmo: a adaptação psicológica para a sobrevivência. É neste ponto que a complexidade humana só se vem a comprovar através das aparentes distorções de conduta numa situação de extrema pressão psicológica.
 
«O Jardim das Borboletas» é esse retrato fiel de um cenário macabro e as tentativas inconscientes e (aparentemente) distorcidas de um grupo de jovens a quem o destino lhe reservou a pior história.
Mais do que a história em si, recomendo o livro de Dot Hutchison sobretudo pelo alarme à complexidade do ser humano que não pode, nem deve, ser desconsiderada.
 
 
Esta leitura contou com o apoio:
 
 
 
Boas leituras,
 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

[Ainda sobre a] Humidade













O conto que dá título ao livro do brasileiro Reinaldo Moraes continua a dar-me que pensar. Esse em particular. Um Liminha que se apaixona perdidamente por uma Mariana. Porque ela é linda de mais. É encanto. É samba em dias de Inverno. É luz que lhe escurece as entranhas. É a esperança da carne. É um tudo e um nada. Um olhar distraído que lhe compra a atenção toda.

Este conto pergunta-me qual será então a verdadeira motivação de um amor que já nasceu - aparentemente - mas sem se materializar em si mesmo. Como pode? Afinal que gatilho ativa esse estado que todos invejam, que todos temem, que todos querem como animais desemparelhados?

Qual será a verdadeira essência? São os olhos? São as ancas? São as promessas de um fogo que desperta lá por baixo, sobe e inflama tudo o resto? O que é Liminha? Que tinha a Mariana para dar cabo de ti até ao fim?
 
Muito bom.
Para ler. Para reler. Para divagar.
 


domingo, 17 de setembro de 2017

A (Dis)funcionalidade do Amor














Amar é sofrer. Para evitares sofrer, não deves amar. Mas, dessa forma vais sofrer por não amar. Então, amar é sofrer, não amar é sofrer, sofrer é sofrer. Ser feliz é amar, ser feliz, então, é sofrer, mas sofrer torna-nos infelizes, então, para ser infeliz temos que amar, ou amar para sofrer, ou sofrer de demasiada felicidade - espero que estejas a perceber.
 
Woody Allen



terça-feira, 12 de setembro de 2017

As nossas almas na noite (Kent Haruf)

Tudo começa quando Addie, de setenta anos e viúva, se cansa de passar as noites sozinha.
As noites custam a passar e o vizinho Louis, também ele sozinho, parece ser a companhia certa. Num compromisso vago, numa espécie de logo se vê,  aceita a sua proposta: "(...) passar a noite. E conversar."
 
Das noites surge uma ligação muito especial. A partilha de uma cama de conversas durante a noite ditará uma proximidade de quem aos poucos se liga pelas parecenças da solidão. Essa ligação é amizade que cresce, amor que solidifica e saudade que transforma.
 
Com o passar das semanas, as noites parecem já não bastar. Então, sem medos, assumem essa amizade capaz de vencer mexericos e atritos de vizinhos, também eles, ansiosos e expectantes de sorte parecida.

O livro de Kent Haruf é uma lufada de esperança e a certeza de que o amor é descarado, num sentido de humor muito próprio e cujos caminhos serão sempre como Deus: misteriosos.

Mais do que uma história de amor, este livro obriga-nos a refletir sobre as fragilidades da terceira idade, a perda e o luto, as condutas politicamente corretas, seja lá o que isso signifique, e o poder da família em estreita batalha com as vontades próprias.

Estará uma pessoa mais velha condenada às convenções dos mais novos? Estará a pessoa mais velha incapaz de amar e viver como quiser porque a vergonha perante os outros tem de imperar?
Acredite quando lhe digo que Kent Haruf o obrigará a refletir profundamente sobre estas questões, sobre o poder do amor, da solidão e das segundas oportunidades para quem não sabe, nem quer, desistir de viver.


Recomendo com ambas as mãos e mais houvessem.
Boas leituras.


 
Um leitura:

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A Estrada Subterrânea (Colson Whitehead)


 
«A Estrada Subterrânea» de Colson Whitehead, vencedor do Prémio Pulitzer 2017 e o National Book Award 2016, ambos para ficção, conta-nos a  história de vida dos antigos escravos numa plantação  de algodão no estado sulista da Georgia, centrada na jornada de uma jovem mulher, Cora.
"Cora é uma jovem escrava numa plantação de algodão. Parece-lhe impossível fugir ao seu destino sombrio. Até que ouve falar da estrada subterrânea."
Cora, cujo pai morreu ainda antes dela nascer e cuja mãe a abandonou, também ela para fugir, é solitária, peculiar e determinada. Nunca lhe parecera possível escapar do destino cruel em que vivia, no entanto, a chegada de Caesar à plantação, muda-lhe o rumo. A estrada subterrânea surge como a possibilidade de uma fuga tantas vezes idealizada.
 
A título de curiosidade, não há, na verdade da História, uma estrada subterrânea propriamente dita. O que naquele tempo se emergia perante a vida pautada de crueldade para com os escravos, era uma rede de apoio através de vários abolicionistas que, contra todo o sistema, facilitavam os meios possíveis para a fuga dos escravos que decidiam fugir, arriscando eles próprios a sua vida. Entre negros e brancos.
 
O autor refere-se a esses caminhos de uma forma sublime e quase fantástica. Há uma salvação em cada estrada subterrânea, uma esperança que se estende até à próxima paragem, incutindo-lhe características tão específicas que, até ao leitor mais desatento, não as esquecerá. Tornam-se reais pela força, provável, de se quererem verdadeiras.
 
É nesse misto entre a ficção e a crua realidade da escravidão, que Whitehead nos aflige, nos inquieta e nos obriga a refletir sobre um período na história do qual, de alguma maneira, todos nós fazemos parte.
 
Cora representa uma época: o martírio de quem suporta uma vida pautada por abusos, uma desumanidade que nos dói crer e depois, o sonho e a esperança. O amor também.
 
"(...) é algo em que qualquer escravo está sempre a pensar: de manhã, à tarde e à noite. A sonhar. Todos os sonhos são de fuga, mesmo que não pareçam."
 
Numa escrita que apavora, com a mestria de nos transferir, de rajada, para um outro tempo, assusta e prende. Afinal, poderá Cora ser verdadeiramente livre depois de tamanhas provações?
Um livro que reúne um pouco de cada coisa em si mesmo: é um romance, é uma fantasia e é, acima de tudo, uma viagem. Uma viagem de quem foge para se tentar encontrar lá mais à frente.
Cora é, indubitavelmente, uma personagem da literatura que ficará para sempre.
Leia. Conheça. Depois diga-me de sua justiça.

Que livro lindo.
 
 
 
Com o estimado apoio:

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Oh! Love, love!

 
Já tinha saudades da Sarah.

domingo, 3 de setembro de 2017

Enredados





















Não conseguimos alcançar uma rede como a deles.
Em nós a vida acontece num corrupio agitado, feliz, de quem conta as horas ausentes.
Tens o cheiro dos Domingos, seja Segunda, seja Terça.
Não conseguimos alcançar uma rede como a deles.
Eles que mostram segmentos rotineiros de vidas, aparentemente felizes. Há um tempo para tudo lá, desde a cozinha tradicional ao novo corte de cabelo. Há também espaço para ovações de uma vida espiritual rica, consistente, de mão dada com o coração sempre sintonizado. Na rede. Sintonizado na rede.
Onde é que eu ia? Nós: as horas passam e o entusiasmo cresce na medida da ausência que morre, cada vez mais próxima de ti. Para te tornar a ver, com olhos de ver. É o chegar a casa, a reclamação do sofá, da almofada, do gato que nos mia. Também ele te reclama.
Os livros caem no chão.
Sem arnês. Sem redes.
Como nós.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eu e Tu (Niccolò Ammaniti)

Niccolò Ammaniti é um conceituado escritor italiano, cujas obras têm tido um forte impacto não apenas no seu país como um pouco por toda a parte. São quarenta e quatro os países cujas suas obras se encontram publicadas.
 
«Eu e Tu» conta-nos a história de Lorenzo, um tímido rapaz que sentia não gostar nem precisar das pessoas. Ele não precisava de mais nada que não o conforto quente assegurado pelos pais, pela sua casa e pelas suas coisas.
Chegada a idade de ingressar na escola, a sua falta de competências sociais veio acompanhada da preocupação crescente dos seus pais.
Decidem, pelo melhor de Lorenzo, consultarem um Psicólogo.
 
Perturbação Narcísica. Para os pais, o Psicólogo é que estava tolo.
A perturbação narcísica surge do mito grego de Narciso: o rapaz que despertava a paixão de todas as mulheres, nunca correspondida, numa postura arrogante de quem se basta a si mesmo.
Narciso, ao contemplar o seu reflexo num lago, apaixona-se por si mesmo e perante tamanha agonia, acaba por se suicidar (se desejar saber em maior detalhe sobre este mito, consulte o livro «Adolescentes Violentos» de  Yves Tyrode, Climepsi Editores).
 
Lorenzo conhecia as limitações impostas pela ausência de sentimentos para com os outros. Nada lhe parecia ser prazeroso na companhia de aparentes estranhos e colegas de escola. À mínima provocação sentida, Lorenzo respondia com agressividade, progredindo ao esperado (e desejado) isolamento.
 
A preocupação da mãe fê-lo despertar para a necessidade de mudar alguma coisa. Não intrinsecamente, apenas porque sabia que tal faria a mãe feliz, numa atitude desprovida de autenticidade: apenas de quem faz porque tem de fazer.
 
Como fazer amigos na adolescência com um adolescente inerte emocionalmente? Pela imitação.
Lorenzo começa a entender os filtros, os esquemas e padrões dos colegas mais populares, imitando. Um dia descobre que o grupo popular da escola combina uma viagem à neve.
Sem perceber como, informa a mãe que também fora convidado.
 
Ao encontrar a mãe a chorar de felicidade pelo convite, Lorenzo percebe que já não pode voltar atrás com a mentira. Prepara a viagem com o máximo de detalhe e, com a perícia de um adolescente, engana tudo e todos instalando-se no prédio da cave. Junto com ele, livros, bebidas e comida para assegurar aquela que, para ele, seria a verdadeira viagem de sonho.
 
Não contou, porém, com os imprevistos que a vida, num sentido de humor apurado, se encarrega de criar. Esse imprevisto tem o nome de Olívia, a sua meia irmã.
Olívia é a aragem fresca de quem o obriga a quebrar as suas próprias (e fechadas) regras. É na relação criada numa cave, sujeitos ao mínimo conforto, que Lorenzo perceberá, enfim, que o armário de gavetas meticulosamente arrumado em que transformara a sua vida nunca fora, realmente, o que mais almejou para si mesmo. Sentiu, pela primeira vez, a necessidade de pertencer, de estar e de ser.
Havia, enfim, despertado para uma vida com mais sentido, onde percebe um coração que bate para lá da função do corpo. Um coração que bate, também ele, ritmos de amor e de saudade.
 
Uma pequena história que, independentemente de uma mensagem tantas vezes repetida, nunca é de mais parar para refletir na sua urgência: o lugar das pessoas certas nas nossas vidas.
 
 
Recomendo.
Boas leituras.

Psicologia(s) #16


Pois. Dá que pensar.



terça-feira, 22 de agosto de 2017

No teu deserto (Miguel Sousa Tavares)














Cada vez me convenço mais de que as histórias de amor por começar, inacabadas ou mortas à nascença, são inadvertidamente as que duram para sempre.
 
Em «O Teu Deserto» um homem decide começar a escrever uma história, até então, escondida no seu passado, talvez pelo medo de enfrentar verdades irrevogáveis e finitas.
_ _ _
«Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer." 
A história retrata a viagem de um homem e de uma jovem, ao deserto. Ele fotojornalista, ela envolta num mistério de quem se tenta encontrar a si mesma.
A viagem é recheada das peripécias mais ou menos previsíveis neste tipo de contexto, contudo, acredito que mais do que a viagem propriamente dita, o que conta nesta pequena história, são as viagens interiores de cada uma destas personagens.
 
Há silêncios que afirmam a certeza da proximidade de duas pessoas. Há certezas de que tal proximidade não reclama dias, semanas e anos para se solidificar. Na verdade, bastaram quatro dias para que a relação deles, até então meros desconhecidos, se tornasse especial.

O amor tem destas coisas. Seja lá de que tipo, duração ou previsão.
O livro de Miguel Sousa Tavares, mais do que centrado numa viagem inesquecível ao deserto, sublinha a importância vitalícia de um alguém que sabe fazer, por nós, a diferença que agita e permite reviver memórias acompanhadas. Talvez por isso muito mais felizes, independentemente do seu fim.

Um livro de memórias, um livro de superação através da escrita, que dá forma, que traz sentido a uma dor que reclama lugar.
Que reclama um nome.

Uma boa surpresa.
Boas leituras.
 

domingo, 20 de agosto de 2017

O Silêncio dos Gatos


Se pudessem escolher, tenho a certeza, começariam a ler.
Modelo: Mirtilo (sempre no seu melhor!)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

PsicoPAIta (Luís Coelho)


O nascimento de um filho é um dos acontecimentos mais felizes na vida de um casal. É, também, a soma de todas as mudanças que, apesar de previsíveis e esperadas, abalam a estrutura de uma casa.
 
Luís Coelho é publicitário, cronista e humorista. É num registo de humor, quase negro, que apresenta ao leitor uma (quase) sátira muito bem conseguida sobre os desafios atuais da parentalidade.
 
Se aos mais sensíveis a frontalidade do autor poderá chocar, acredite que por detrás dessa rebelião de palavras agridoces, se esconde um pai preocupado e apaixonado pelos filhos. O ponto alto deste livro é mesmo esse: um desabafo sincero e provocador de um pai que, independentemente das dificuldades, se mantém firme no seu papel:
 
"E este é apenas um dos papéis do pai que, antes de ser pai, é muitas outras coisas. É criado das hormonas da mulher, moço de recados, chauffeur, mordomo, empregado, cozinheiro. Enfim, um verdadeiro pau-mandado, ou melhor, pai mandado, lá de casa."
 
O leitor será confrontado a lidar com as mais profundas lamúrias deste pai, não esquecendo a  astúcia para críticas incisivas (e cómicas, claro está) a uma sociedade cheia de pressa, cujo troféu mais cobiçado passa por ser a melhor mãe, o melhor pai, o melhor tudo.
 
O autor sublinha o sentido de oportunidade das crianças. É todo um novo mundo que se afigura e cujas adaptações nem sempre são fáceis de gerir: deixar de fazer parte do grupo dos adultos fixes nas mesas de casamento, passar a falar única e exclusivamente sobre os filhos, guerrear pela melhor posição de pai e de mãe no infantário, resistir a um número cómico de horas de sono, manter a calma quando esta se extinguiu há meses, subjugar-se ao segundo (terceiro ou quarto) lugar na vida da mulher e lidar com cocós sem sentido de oportunidade, são apenas algumas das situações relatadas num humor irrepreensível.
 
Não se deixe iludir pela aparente psicopatia deste pai. Em todos os cenários há um lado bom e um lado mau. Na parentalidade não poderia deixar de ser diferente.
"Mas se, por um lado, anseio pelo descanso que é estar longe, por outro, sinto tantas saudades que o meu coração fica mesmo pequenino. Que feitiçaria é esta?
 
Recomendo sobejamente a leitura deste livro não só pelo humor que percorre todas as páginas mas, sobretudo, pela determinação do autor em expor assuntos que, aposto, todos os pais desejariam mas a quem lhes falta a coragem.
 
Boas leituras!
 

domingo, 13 de agosto de 2017

sobre o amor


















O amor espera. É tensão que agita. Tumulto. Um fazer cair sem cair. Questões sem resposta. Um amo-te desconhecido. A beleza do ainda por dizer. Olhares que respondem para dentro. Um abismo de respostas ansiosas para se rebelarem. Agitadas. Contidas numa classe a quanto obrigas. Escondem beijos por dar. O impacto que terão. O sentido. O dia a seguir. O depois desse dia. O abraço que se perde no caminho. É a espera. Não estraga. Não estraga a beleza das coisas pequenas. É o tempo. Para crescer. Solidificar. Sem ventos fortes ou chuvas fora de tempo. Demolidoras e intensas. Devastadoras.
O amor tem sempre a classe de um relógio suíço. Certeiro na chegada. Como raízes pequenas, que crescem na medida dos dias. Crescem. E crescem. E crescem.


Bauman

 
Amar não é comodismo e, muito menos, uma moda.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Benjamim (Chico Buarque)












Chico Buarque é um conhecido músico, um dos nomes mais sonantes da música popular brasileira, sendo também dramaturgo e escritor.

Numa narrativa altamente cinematográfica, este segundo livro do autor conduz-nos às dores de Benjamim, ex-modelo e que, agora, se concentra em analisar, ao mais ínfimo detalhe, o decorrer de uma vida repleta de mistérios por resolver.
O maior mistério chama-se Castana Beatriz. Depois do estranho desaparecimento e morte desta mulher, a única que amou, Benjamim concentra os seus dias já maduros na procura de respostas que lhe possam acalmar o espírito.

Todo o livro se concentra na procura desesperada daquela mulher, da sua história, da sua origem e do seu fim. Encontra, porém, Ariela: mulher que só pode ser encarnação de Castana.
Nunca saberemos.

A história que Chico Buarque nos apresenta assenta numa simplicidade enganosa. O estilo narrativo destaca-se pela subtileza, pela incompletude e, sobretudo, por essa característica de quem consegue fazer oscilar o leitor entre espaços temporais tão diferentes, num vaivém de questões sem resposta aparente.

Mais do que uma história em que um homem segue o rasto de uma mulher, «Benjamim» é a personificação da perda, do amor e das esperanças vãs.


 
Com o apoio:

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

de repente...



sábado, 5 de agosto de 2017

Amor Líquido (Zygmunt Bauman)













Zygmunt Bauman é considerado um dos mais atentos observadores das condições do mundo atual. Nessa sequência e fruto das suas investigações, criou o conceito de «modernidade líquida» para a sociedade de hoje. Nada é para durar, aparentemente.
Nasceu na Polónia, em 1925, onde estudou Sociologia na Universidade de Varsóvia, ocupando a cátedra de Sociologia Geral.
 
«Amor Líquido», um dos mais aclamados livros do autor, foca as particularidades (atuais) do relacionamento humano cujos "personagens centrais são homens e mulheres (...) desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis."
 
A tendência dos dias de hoje, em matérias de amores e corações assolapados, é firmada por um receio generalizado. Receio de dar sem receber. Receio de se entregar na incerteza da vontade do outro. Atualmente, as relações amorosas e a criação de uma ligação duradoura é, cada vez mais, sentida como uma armadilha a ser evitada a qualquer custo.
 
Os porquês escondidos entre tanto receio é um dos grandes propósitos do autor.
A ideia de «viver junto» com alguém, dar de si sem arnês, parece cada vez mais uma utopia com sapatos de Cinderela à mistura. Sapatos que não nos permitem desbravar o caminho da intimidade. Em alternativa, caminha-se pelos trilhos de uma modernidade imposta, em grande parte, pelos avanços tecnológicos e as redes que se estabelecem no invisível, no fácil, no imediato. No entanto, mesmo as relações cada vez mais pautadas pelas teclas «enter» e «delete» não deixam, ironicamente, de contribuir para a ansiedade, a pressão e a necessidade de estar, sempre, presente.
 
Os dias de hoje são pautados pela desaprendizagem do amor, este, assente num novo status, muito mais reciclável. Num paralelismo extraordinário, o autor compara as relações pessoais às relações de consumo: vamos usar até deixar de fazer falta. Enquanto o produto está apto, cativante e capaz de nos realizar, pode manter-se ali. Quando deixar de obedecer à regra do bom uso, nada como uma tecla «delete».

Falemos em amores de bolso: são pequenos, capazes de se adaptarem rapidamente e, na mesma medida, capazes de desaparecerem na força da nossa própria vontade.
O que me dirá: interessante ou assustador?
 
Na mesma linha de pensamento de Lucano ao defender a ideia "É natureza do amor ser refém do destino", Bauman aponta-nos o dedo para afirmar que o amor exige a incompletude para encontrar o seu real significado. Talvez a crise de valores que se vive atualmente possa, de facto, ser explicada por dois pontos bem assentes nesta obra: a ausência de coragem e humildade.
 
Não acredite o leitor nessa capacidade tão instantânea de amar, como comida pré-feita. Não acredite o leitor nessa fusão de amor e desejo sendo que, na verdade, o último carece dramaticamente do primeiro, numa simbiose perigosa, mas necessária. Não acredite o leitor que faz parte de uma comunidade através de alertas, constantes, de mensagens soltas. Não acredite o leitor que tais conversas detêm significado. O paradoxo atual das redes sociais passa, essencialmente, por essa ilusão de pertença. A quem? A quê? E quando?
 
São muitas as questões a que Bauman o desafiará refletir.
Muitos outros pontos são abordados ao longo da sua investigação como, por exemplo, a globalização, as políticas e todo um conjunto avassalador de mudanças sociais que, aparentemente, justificam e fazem prevalecer a tendência ao isolamento como utopia de uma segurança vazia. Da construção de um amor-próprio, unilateral e doente à nascença.
 
Pessoalmente, a forma como os laços humanos tendem a afastar-se, cada vez mais, nada tem de interessante. O cenário assustador que Bauman nos revela, permite-nos perceber (mesmo que não queiramos) a constante conspiração contra a confiança.

Vamos pensar mais sobre isto.
 
Recomendo com ambas as mãos.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Com saudades da Joyce

 

terça-feira, 25 de julho de 2017

Estante de Serviço #9


Ler O Jardim Secreto serve para nos lembrar de forma delicada que muitas das nossas queixas de saúde são, na verdade, fictícias.
O jovem Collin, confinado ao seu quarto desde que nasceu, está convencido de que tem um alto nas costas que se vai transformar numa corcunda e levá-lo a uma morte prematura. Evidentemente não existe alto nenhum, a não ser as suas vértebras. Os seus cuidadores fizeram-no acreditar que é uma criança deformada, condenada a nunca chegar à idade adulta e que o ar fresco é venenoso para o seu sangue. Mary, a sua prima mimada, tão capaz de fazer birras e de dar ordens a toda a gente como ele, não consente nada disto. Sendo a única pessoa com coragem suficiente para dizer a Collin que não tem nada de mal, consegue enfrentar a raiva que ele tem pelo seu presumível destino usando a sua própria fúria perante tanta inércia. Só uma rapariguinha valente e obstinada em dar vida ao seu Jardim Secreto pode picar a bolha do terror de Collin e mostrar-lhe a verdade.
A paixão de Mary pelo Jardim atrai Collin para fora do seu quarto, para o mundo das flores em botão e dos pássaros - um mundo também habitado pelo sardento e irresistível Dickon, a quintessência da saúde. Deixe que este romance o tire da cama para encontrar o seu jardim secreto, quem sabe o seu Dickon, e um regresso vigoroso a uma excelente saúde.
 
Das autoras Ella Berthoud e Susan Elderkin
«Remédios Literários»
 
 
 
A «Estante de Serviço» está de volta.
Nada melhor do que arejar ideias, pensar por si mesmo e criar um jardim só seu, quais ervas daninhas.
Acredite. Seja feliz.
 

Tempos Líquidos

 
"Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar."

Zygmunt Bauman
 
[Assustador]







terça-feira, 18 de julho de 2017

O Castelo de Vidro (Jeannette Walls)

Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras mas, para Tolstoi, as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.
Em «O Castelo de Vidro», Jeannette Walls declara o seu amor a uma família despreocupada, com o coração inflamado por aventuras mas, ainda assim, a sua família.
Com base na sua própria vida, a autora partilha com o leitor, num tom intimista e numa escrita que flui sem artefactos alheios, toda a jornada que a tornou na mulher (lindíssima) que é hoje.
 
 
Jeannette Walls | Ilustração de Jillian Tamaki

 
- Para onde vamos, papá? - perguntei.
- Para onde formos - disse ele.
 
Sem destino. Sem hora marcada. Sem planos de ação de qualquer tipo, os pais de Jeannette deambulam ao sabor do vento, de coração cheio pela aventura somada aos seus dias de eterna ilusão.
Nessa jornada que durou até à adolescência, os filhos seguiam a direito os passos tortos dos seus pais. A infância, de tão pura e inocente, permitiu-lhes a felicidade de receber estrelas e planetas, só seus, pelo Natal. E a infância, de tão pura e inocente, encarou a vida errante junto de dois pais irresponsáveis como a maior aventura das suas vidas. Mas o tempo, esse, desfez as raízes tenras da infância para as substituir pelo peso não só da idade mas, acima de tudo, da fome, do frio, dos abusos, da crueldade dos outros. Uma consciência pesada começava, por fim, a agitar-se em cada um deles.
 
"Andar de volta das crianças que choram só as encoraja, dizia-nos. É um reforço positivo para um comportamento negativo."
 
Entregues à sua própria sorte, os quatro irmãos vivem momentos de constante dificuldade em prol da cegueira de uma mãe artista e de um pai que, apesar de inteligente, opta pela bebida como escapismo à vida que não consegue alterar e ao «Castelo de Vidro», casa dos sonhos, que nunca cresceu para lá de um esquisso velho e sujo.
 
Tudo na vida destas crianças fora pautado por agruras, faltas de bom senso e constância. Se numa escola eles eram dotados, noutra, tinham dificuldades de aprendizagem. E assim, ao sabor do vento dos outros, eles aprenderam a escapar de «comportamentos impróprios», a poupar e criar um orçamento, a trabalhar afincadamente, a sonhar para lá de uma casa só pela metade, com direito a chuva na cozinha, buracos no alpendre e comida estragada.
 
"Se não te queres afogar, tens mesmo de perceber como se nada."
 
Desde pequena, com as queimaduras de último grau pelo corpo, a autora revela-nos o seu esforço, a sua capacidade de resistir a adversidades diárias para, não só aprender a nadar, como aprender a andar pelo seu próprio pé.
 
Uma história capaz de agitar os corações mais indiferentes.
Uma história capaz de nos mostrar de que quando o sonho prevalece e o esforço se desenvolve, a possibilidade de se tornar real cresce na mesma medida da vontade.
Muito bom.
 
 
 
 
Com o estimado apoio:
 


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Contos de Assis #3

Seremos nós preenchidos por duas almas distintas?
Quem nos disse, afinal, que em assuntos de alma impera a singularidade?
Assis acorda o leitor para esta questão no seu conto «O Espelho». A partir do momento em que Jacobina, homem de 25 anos, sobe na vida após conquistar um novo posto militar, tudo o que até então conhecia de si mesmo, e dos outros, será cruelmente colocado em causa.
De origem humilde, educado e homem prestável, Jacobina começa a perceber que a distinção militar tem um peso que até então não acontecia.
A sua tia Marcolina, sempre amável, deixara o tratamento especial de «Joãozinho» para o rebatizar, agora, de "Sr. Alferes", estando completamente fora de questão qualquer outra forma de a ele se lhe dirigir.  Um dia, como prova do seu amor, a tia oferece-lhe um espelho pertencente à Família Real Portuguesa. O sobrinho merecia isso e muito, muito mais.
Se inicialmente quase aflição lhe causava todos aqueles formalismos, com o tempo integrou essa nova alma que não sabia ter: a alma que lhe permitia definir-se através da visão dos outros.
Por motivos de saúde do seu filho, a tia Marcolina vira-se obrigada a abandonar a quinta. Com a sua saída apressada, também os escravos aproveitaram a sua ausência para dali fugirem o quanto antes.
Restou Joãozinho, desculpem, o Sr. Alferes, só e abandonado naquela casa.
A solidão pesada que começara por sentir através do silêncio de toda a casa, de dia e de noite, suscitou nele um mal-estar e uma névoa constante. E já que falamos em névoa, espante-se o leitor porque quando o nosso Sr. Alferes se contemplava no tal espelho, nada via. Um borrão, talvez. Mas nada via de claro, de si mesmo, no reflexo de um objeto tão requintado. Ironias.
Passara os dias a evitar o reflexo do espelho. De esguelha, aos poucos, enchia-se de coragem contemplando-o, apenas mais uma vez, para confirmar num desânimo de que, afinal, todo aquele borrão se mantinha em si mesmo.
No dia em que decide vestir a farda, descobre a solução para tal enigma. O borrão até então teimoso, desaparecera dando, finalmente, a clareza que este homem tanto precisava.
 
Com «O Espelho» Machado de Assis enfatiza essa importância, tão vital, do ser e do parecer. O espelho não é mais do que, em sentido figurado, todas as pessoas quem apontam dedos, opinam, cochicham e definem essa tal alma nova.
Priorizando a opinião alheia e os traços com que os outros o definem, enquanto nova pessoa, a tendência do comportamento é anular a alma interior para, resignado, renascer bem longe daquilo que sempre o definira.
 
Recomendo.
 
 
Com o apoio:

domingo, 16 de julho de 2017

Café com Livros

 
Fonte: Pinterest
 


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Palavras mal colocadas #10


 
 Acho que tenho ali uma maçã ansiosa de tão podre...
(Valha-me Deus!)