segunda-feira, 17 de julho de 2017

Contos de Assis #3

Seremos nós preenchidos por duas almas distintas?
Quem nos disse, afinal, que em assuntos de alma impera a singularidade?
Assis acorda o leitor para esta questão no seu conto «O Espelho». A partir do momento em que Jacobina, homem de 25 anos, sobe na vida após conquistar um novo posto militar, tudo o que até então conhecia de si mesmo, e dos outros, será cruelmente colocado em causa.
De origem humilde, educado e homem prestável, Jacobina começa a perceber que a distinção militar tem um peso que até então não acontecia.
A sua tia Marcolina, sempre amável, deixara o tratamento especial de «Joãozinho» para o rebatizar, agora, de "Sr. Alferes", estando completamente fora de questão qualquer outra forma de a ele se lhe dirigir.  Um dia, como prova do seu amor, a tia oferece-lhe um espelho pertencente à Família Real Portuguesa. O sobrinho merecia isso e muito, muito mais.
Se inicialmente quase aflição lhe causava todos aqueles formalismos, com o tempo integrou essa nova alma que não sabia ter: a alma que lhe permitia definir-se através da visão dos outros.
Por motivos de saúde do seu filho, a tia Marcolina vira-se obrigada a abandonar a quinta. Com a sua saída apressada, também os escravos aproveitaram a sua ausência para dali fugirem o quanto antes.
Restou Joãozinho, desculpem, o Sr. Alferes, só e abandonado naquela casa.
A solidão pesada que começara por sentir através do silêncio de toda a casa, de dia e de noite, suscitou nele um mal-estar e uma névoa constante. E já que falamos em névoa, espante-se o leitor porque quando o nosso Sr. Alferes se contemplava no tal espelho, nada via. Um borrão, talvez. Mas nada via de claro, de si mesmo, no reflexo de um objeto tão requintado. Ironias.
Passara os dias a evitar o reflexo do espelho. De esguelha, aos poucos, enchia-se de coragem contemplando-o, apenas mais uma vez, para confirmar num desânimo de que, afinal, todo aquele borrão se mantinha em si mesmo.
No dia em que decide vestir a farda, descobre a solução para tal enigma. O borrão até então teimoso, desaparecera dando, finalmente, a clareza que este homem tanto precisava.
 
Com «O Espelho» Machado de Assis enfatiza essa importância, tão vital, do ser e do parecer. O espelho não é mais do que, em sentido figurado, todas as pessoas quem apontam dedos, opinam, cochicham e definem essa tal alma nova.
Priorizando a opinião alheia e os traços com que os outros o definem, enquanto nova pessoa, a tendência do comportamento é anular a alma interior para, resignado, renascer bem longe daquilo que sempre o definira.
 
Recomendo.
 
 
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2 comentários:

Carlos Faria disse...

Contos de Assis apenas conheço O alienista que gosto muito, mas tenho vontade de conhecer muitos outros

Denise disse...

Carlos,

Vou adorar conhecer a sua opinião quando se decidir abandonar a ideia do número de exemplares que tem do «Alienista» (risos) e comprar este livro. Garanto-lhe: vale a pena! :)
Beijinhos e boas leituras