Um, ninguém e cem mil (Luigi Pirandello)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Este livro é absolutamente espetacular. Tenho de começar, desde logo, a dizer as melhores coisas de Luigi Pirandello e deste «Um, ninguém e cem mil», ainda antes de me debruçar sobre a história propriamente dita. Que livro espetacular e singular.
Dos melhores livros que li este ano, sem sombra de qualquer dúvida.
 
Por exemplo, eu acho uma determinada pessoa burra como um cepo. Limitada. Estúpida. Arrogante e com o coração plantado no lado errado. Por outro lado, essa mesma pessoa considera-se a melhor do mundo, com tudo no sítio, psicológica e fisicamente.
Conseguem entender onde quero chegar? Parece básico, não?
 
Mas a questão da consciência, da perceção do outro, individual e social, imposta por Pirandello, neste livro, assume tal dimensão, quase paranoica (ou mesmo?), que o leitor quase resvala também no risco de assumir uma nova personalidade, diria, a dar para o esquizoide (risos).
 
Este livro, desculpem o meu entusiasmo e risco de exaltações repetidas, é genial nesse sentido (e muitos outros). A perceção, e a irrelevância que o autor incute na consciência afinal, é tão magistralmente evidenciada que é impossível não nos rendermos e, quase, nos ajoelharmos perante um dos melhores livros do mundo.
 
Um homem, depois de contemplar o seu nariz e perceber, através da perceção da própria mulher, que aquele pende um pouco para a direita, cai numa reflexão profunda sobre os olhares dos outros quanto à sua própria pessoa sendo, então e afinal, não apenas uma pessoa, mas um ninguém ou cem mil, face às inúmeras perceções de quem consigo cruza.
 
Um dos exemplos dados pelo autor incide numa passagem em que uma das personagens recebe alguém na sua sala e, mais tarde, surge outro convidado. A necessidade de se livrar do primeiro impera não pelo trabalho de ter duas pessoas no mesmo espaço mas, antes, pela transformação do Eu em várias mediante os olhos ali expostos. O próprio personagem esmiuçava esses Eus, do género: eu como me vejo, o eu como ela me vê, o eu como ele me vê e o eu como acredito que ele me vê.
 
Porque, na verdade, nós somos uma espécie de matrioskas. Dentro escondemos segredos e facetas, tão diferentes umas das outras. E esses outros acabam, indelevelmente, por se transformarem em espelhos inoportunos. Cada um reflete pedaços de nós quando, nem sempre, seria suposto.
 
Às páginas tantas, os cem mil transformam-se em muitos mais e, caro leitor, ou mantém a sua serenidade ou correrá, mesmo, um enorme risco de se perder em si mesmo.
 
Um livro soberbo que nos provoca, forçosamente, inúmeras e ricas reflexões sobre o que fazemos, quem somos para nós, para os outros e, acima de tudo, a relevância que essas perceções assumem para a nossa (in)felicidade.
 
Comece já a ler.
Boas leituras.
 

4 comentários:

Carlos Faria disse...

Um escritor que ainda nunca li, este post é um convite para o descobrir

Beatriz disse...

Denise :)
Um livro absolutamente genial.
Se n'"O falecido Mattia Pascal" havia por trás a ideia de Rousseau - todos nascemos livres, todavia estamos sempre acorrentados -, neste passa a ideia de Nietzsche, ninguém está mais longe do conhecimento do sujeito do que o próprio sujeito.
E tudo isto com um sentido de humor brilhante.
Beijinhos.

Isaura Pereira disse...

Não conheço mas já está na minha wishlist :)
Parece-me que vou adorar.
Beijinhos e boas leituras

Denise disse...

Olá Carlos,

Tenho a certeza que irá apreciar muito este livro. Algo me diz! :)
Beijinhos e boas leituras

Beatriz! :)
Se antes adorava o «Falecido» imagina como fiquei depois de ler este... absolutamente imperdível. Gostei tanto!

Isaura, olá!
Um livro que fica mesmo bem em qualquer lista de desejos! Espero que gostes e que seja uma leitura para breve!
Beijinhos e muitas, muitas leituras

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