terça-feira, 18 de julho de 2017

O Castelo de Vidro (Jeannette Walls)










Todas as famílias felizes se parecem umas com as outras mas, para Tolstoi, as famílias infelizes são-no cada uma à sua maneira.
Em «O Castelo de Vidro», Jeannette Walls declara o seu amor a uma família despreocupada, com o coração inflamado por aventuras mas, ainda assim, a sua família.
Com base na sua própria vida, a autora partilha com o leitor, num tom intimista e numa escrita que flui sem artefactos alheios, toda a jornada que a tornou na mulher (lindíssima) que é hoje.
 
 
Jeannette Walls | Ilustração de Jillian Tamaki

 
- Para onde vamos, papá? - perguntei.
- Para onde formos - disse ele.
 
Sem destino. Sem hora marcada. Sem planos de ação de qualquer tipo, os pais de Jeannette deambulam ao sabor do vento, de coração cheio pela aventura somada aos seus dias de eterna ilusão.
Nessa jornada que durou até à adolescência, os filhos seguiam a direito os passos tortos dos seus pais. A infância, de tão pura e inocente, permitiu-lhes a felicidade de receber estrelas e planetas, só seus, pelo Natal. E a infância, de tão pura e inocente, encarou a vida errante junto de dois pais irresponsáveis como a maior aventura das suas vidas. Mas o tempo, esse, desfez as raízes tenras da infância para as substituir pelo peso não só da idade mas, acima de tudo, da fome, do frio, dos abusos, da crueldade dos outros. Uma consciência pesada começava, por fim, a agitar-se em cada um deles.
 
"Andar de volta das crianças que choram só as encoraja, dizia-nos. É um reforço positivo para um comportamento negativo."
 
Entregues à sua própria sorte, os quatro irmãos vivem momentos de constante dificuldade em prol da cegueira de uma mãe artista e de um pai que, apesar de inteligente, opta pela bebida como escapismo à vida que não consegue alterar e ao «Castelo de Vidro», casa dos sonhos, que nunca cresceu para lá de um esquisso velho e sujo.
 
Tudo na vida destas crianças fora pautado por agruras, faltas de bom senso e constância. Se numa escola eles eram dotados, noutra, tinham dificuldades de aprendizagem. E assim, ao sabor do vento dos outros, eles aprenderam a escapar de «comportamentos impróprios», a poupar e criar um orçamento, a trabalhar afincadamente, a sonhar para lá de uma casa só pela metade, com direito a chuva na cozinha, buracos no alpendre e comida estragada.
 
"Se não te queres afogar, tens mesmo de perceber como se nada."
 
Desde pequena, com as queimaduras de último grau pelo corpo, a autora revela-nos o seu esforço, a sua capacidade de resistir a adversidades diárias para, não só aprender a nadar, como aprender a andar pelo seu próprio pé.
 
Uma história capaz de agitar os corações mais indiferentes.
Uma história capaz de nos mostrar de que quando o sonho prevalece e o esforço se desenvolve, a possibilidade de se tornar real cresce na mesma medida da vontade.
Muito bom.
 
 
 
 
Com o estimado apoio:
 


segunda-feira, 17 de julho de 2017

Contos de Assis #3


Seremos nós preenchidos por duas almas distintas?
Quem nos disse, afinal, que em assuntos de alma impera a singularidade?
Assis acorda o leitor para esta questão no seu conto «O Espelho». A partir do momento em que Jacobina, homem de 25 anos, sobe na vida após conquistar um novo posto militar, tudo o que até então conhecia de si mesmo, e dos outros, será cruelmente colocado em causa.
De origem humilde, educado e homem prestável, Jacobina começa a perceber que a distinção militar tem um peso que até então não acontecia.
A sua tia Marcolina, sempre amável, deixara o tratamento especial de «Joãozinho» para o rebatizar, agora, de "Sr. Alferes", estando completamente fora de questão qualquer outra forma de a ele se lhe dirigir.  Um dia, como prova do seu amor, a tia oferece-lhe um espelho pertencente à Família Real Portuguesa. O sobrinho merecia isso e muito, muito mais.
Se inicialmente quase aflição lhe causava todos aqueles formalismos, com o tempo integrou essa nova alma que não sabia ter: a alma que lhe permitia definir-se através da visão dos outros.
Por motivos de saúde do seu filho, a tia Marcolina vira-se obrigada a abandonar a quinta. Com a sua saída apressada, também os escravos aproveitaram a sua ausência para dali fugirem o quanto antes.
Restou Joãozinho, desculpem, o Sr. Alferes, só e abandonado naquela casa.
A solidão pesada que começara por sentir através do silêncio de toda a casa, de dia e de noite, suscitou nele um mal-estar e uma névoa constante. E já que falamos em névoa, espante-se o leitor porque quando o nosso Sr. Alferes se contemplava no tal espelho, nada via. Um borrão, talvez. Mas nada via de claro, de si mesmo, no reflexo de um objeto tão requintado. Ironias.
Passara os dias a evitar o reflexo do espelho. De esguelha, aos poucos, enchia-se de coragem contemplando-o, apenas mais uma vez, para confirmar num desânimo de que, afinal, todo aquele borrão se mantinha em si mesmo.
No dia em que decide vestir a farda, descobre a solução para tal enigma. O borrão até então teimoso, desaparecera dando, finalmente, a clareza que este homem tanto precisava.
 
Com «O Espelho» Machado de Assis enfatiza essa importância, tão vital, do ser e do parecer. O espelho não é mais do que, em sentido figurado, todas as pessoas quem apontam dedos, opinam, cochicham e definem essa tal alma nova.
Priorizando a opinião alheia e os traços com que os outros o definem, enquanto nova pessoa, a tendência do comportamento é anular a alma interior para, resignado, renascer bem longe daquilo que sempre o definira.
 
Recomendo.
 
 
Com o apoio:

domingo, 16 de julho de 2017

Café com Livros

 
Fonte: Pinterest


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Palavras mal colocadas #10


 
 Acho que tenho ali uma maçã ansiosa de tão podre...
(Valha-me Deus!)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O Deus das Pequenas Coisas (Arundhati Roy)












«O Deus das Pequenas Coisas» é o primeiro romance da indiana Arundhati Roy, tendo sido reconhecido com o prémio Booker Prize 1997.
 
Esta história, precisamente pela simplicidade aparente, prova-nos a magia vitalícia que só a literatura nos oferece, quase de mão beijada.
 
Como só quem escreve com o coração na garganta, Arundhati Roy tece linhas marcadas pelo tempo que vai oscilando na vida de uma família para, numa escrita singular, nos fazer tremer o chão e refletir no quanto a vida é esse sopro. O quanto somos todos fruto dessa teoria do caos. A borboleta que voa lá além e que, por isso mesmo, provocará um tornado sabe lá Deus onde.
 
Em «O Deus das Pequenas Coisas» o leitor acompanhará a  história de três diferentes gerações de uma família de Kerala (Índia). Tudo começa com a chegada de Rahel já mulher, da América, pronta a mergulhar no passado da família e no confronto com tudo o que ali aconteceu.
Ela espera por Estha, o seu irmão gémeo, adormecido num passado que lhes mudou o ritmo aparente das suas vidas simples, pequenas, de quem sabe ler ao contrário e viver contra as marés. Sem nunca esquecer Sophie Mol. Terá, de facto, a sua história começado e terminado com a chegada da prima?
 
Um livro que exige leitura sem arnês. Para muitos trata-se de uma saga familiar, e é. Mas, na mesma medida, «O Deus das Pequenas Coisas» é uma das histórias de amor mais bonitas que alguma vez conhecerá.

Falo da fragilidade das coisas. Do mundo. Das pessoas. Dos laços que se criam para, mais tarde e com conhecimento de causa, estrangularem todos os sonhos. É isso e muito mais que fez da história de Arundhati Roy uma quase obrigatoriedade, demarcada também por um período político difícil, a espelhar as tristezas e dramas de uma família condenada em si mesma.

Fica o amor, independentemente das suas leis e ditames fáceis, de quem não lhe conhece os movimentos e o tenta aniquilar. Dizem, e tão bem, que uma verdadeira história de amor é aquela condenada desde o início.

 
Se é daqueles que, como eu, demorei tanto a conhecer esta história, corra depressa.
Recomendo. Muito.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Humidade (Reinaldo Moraes)























O livro de contos de Reinaldo Moraes é uma promessa que se cumpre para o leitor que deseja desprender-se de assuntos mais sérios e seguir, sem freio, por uma estrada de histórias hilariantes, repletas de bom humor, sexo à mistura e um pouco de amor.
 
Numa escrita despretensiosa, leve e muito arejada, o autor apresenta-nos personagens muito próprias, no entanto, comuns pela partilha de um vazio, estranho, que se sente mas não se toca.
 
O leitor que se atrever a entrar na «Humidade» de Moraes, conhecerá a mulher que reivindica, ferozmente, as funções do seu marido na cama, o homem capaz de se casar para, finalmente, conhecer os prazeres do corpo da mulher, linda de mais, púdica de mais, santa de mais.
Conhecerá, também, a história de um homem, duplamente traído, mas com uma história para contar aos amigos e às amigas. Conto-lhe, apenas, que essa história tem duas assaltantes como personagens principais.
Inclusivamente, entrará numa espécie de mundo novo, para lá do espaço, onde as aventuras se desenrolam sem hora, apenas acontecem pelo bem comum de um desejo partilhado. Eu diria, um senhor desejo.
 
«Humidade» do conceituado autor Reinaldo Moraes é garantia de descontração mas, também, de um retrato sobre a complexidade humana que procura, nos prazeres mais leves, uma fuga sem destino.
 
 
Recomendo!
 
 
 
Com o apoio:

domingo, 9 de julho de 2017

O próximo a ler


... está aqui.
Qual será?

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Ops. Em 2018, talvez?

Quantas resoluções já foram ao ar este ano?
(Risos)

terça-feira, 4 de julho de 2017

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A Banda (Chico Buarque) #Coleção Afonso Cruz



A Alfaguara (Penguin Random House) acaba de lançar um projeto com a capacidade de surpreender os mais pequenos e os mais graúdos.
A culpa é toda de Afonso Cruz, que decidiu partilhar com os leitores as suas maiores fontes de inspiração. Fontes essas, agora, transportadas para a magia e eternidade que só um livro lhe assegura.
Nada como eternizar memórias, momentos e inspirações de forma tão enternecedora como poderá constatar neste primeiro livro «A Banda», música tão conhecida (e bonita) de Chico Buarque.
Com ilustrações lindíssimas de Nádia e Tiago Albuquerque, o leitor não só terá a oportunidade de conhecer mais sobre um dos nossos escritores contemporâneos mais influentes como pode, também, imiscuir-se na letra de uma música que, assim e do nada, se transforma numa história para contar a quem quiser.
Através da música de Chico Buarque o autor partilha connosco a ideia de celebração da vida . Na mesma medida em que a banda passa, os corações vão deixando entrar o poder redentor da música, capaz de curar, de reafirmar e se extrapolar novas formas de sentir. De viver.
Sem formato fixo, esta coleção terá a periocidade de dois títulos por ano, sendo que o próximo tem já publicação prevista para Outubro de 2017.
 
A curiosidade, por estes lados, já abunda.
Recomendo vivamente.
 
 
 
Sobre o Afonso Cruz:
 
 
 
Sempre grata. Sempre honrada.
 

As crianças é que sabem

             Para quê complicar?
                    Perfeito.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Miguel Esteves Cardoso disse...

 
Esta insegurança é irritante. Um homem pode ser amado por cem mulheres bonitas e no dia em que uma feia lhe vira a cara desaba-se-lhe a confiança. Acha que as outras cem é que estavam enganadas e que só esta percebeu finalmente que ele não prestava para absolutamente nada. A uma mulher, em contrapartida, basta ser amada uma única vez para achar que os cem homens que a rejeitam são simplesmente parvos que não sabem o que perdem.

Like air


Breathing dreams like air.
F. Scott Fitzgerald

quarta-feira, 28 de junho de 2017

As Oito Montanhas (Paolo Cognetti)











A amizade mais bonita de todas é aquela que pouco ou nada pede. Que existe, assim, simplesmente. A história de Paolo Cognetti, mais do que amizade, fala-nos das fragilidades do ser humano nessa capacidade de amar, dar e ceder.
 
«As Oito Montanhas» retrata a história de amizade de Pietro, menino da cidade, e de Bruno, o menino que sempre viveu nas montanhas. A amizade entre os dois é concebida nas linhas frágeis da infância e que se adensará pelas linhas, agora do tempo, cada vez mais consistentes e seguras de si.
 
Nenhum deles poderia jurar a pés juntos que uma amizade delimitada pelo tempo, perpetuaria pela vida fora. E é aí que me forço a repetir o quanto as amizades mais bonitas são aquelas que pouco ou nada pedem. Estão lá, firmes como um guarda-chuva. Versátil em qualquer estação do ano.
 
Enquanto Pietro, desde jovem, viverá o peso de não ter partilhado o sonho do seu pai, escalando montanhas e amontando aventuras; Bruno viverá cercado dos medos da cidade, das pessoas com quem não lida mas, sobretudo, nesse anseio de quem só encontra paz na solidão de si mesmo.
 
Chegará o momento em que Pietro, fruto da discórdia latente com um pai que parece gravitar e condicionar a vida de uma família inteira, se afasta da montanha e de todas as memórias que aquela lhe ofereceu. Aprenderá, numa jornada solitária, o medo intrínseco de amar. Pietro será um eterno solitário, vagueando pela vida, procurando respostas, precisamente, no lado oposto das questões.
 
Será a morte do pai a trazê-lo de volta à montanha, à vida e a Bruno.
Numa simbiose perfeita que só o tempo sabe tecer, os dois rapazes continuarão, agora, a crescer na solidão da montanha, na construção de uma casa, como sonhou o seu pai, e na compreensão de um tempo que passou, mas (ainda) possível de resgatar.
 
O aclamado livro de Paolo Cognetti vem afirmar a necessidade de voltar aos lugares da infância que nos asseguram uma esperança incólume. Mais que não seja, pelas memórias antes construídas.
 
Um livro maravilhoso, narrado numa espécie de semi-obscuridade em que nem sempre é necessário explicar, tim tim por tim tim, as demandas de um coração desordeiro.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Rebeldia

 
Comece a semana com uma (boa) dose de rebeldia.
Quem diz rebeldia, diz Nutella.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Para os homens


 
Os homens que se emocionam com as paixões
são capazes de ter mais doçura na vida.
René Descartes
 
 
Simples assim.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Psicologia(s) #11


segunda-feira, 19 de junho de 2017

O meu nome era Eileen (Otessa Moshfegh)


















São muitos os clássicos da literatura marcados pelas suas personagens. Muitas vezes, podemos pensar que são, precisamente, as particularidades da personagem que tornam um livro num clássico. Não tem de ser necessariamente assim, mas acredito que muito contribua para tal. Pensemos em  Jane Eyre, Hans Castorp ou em Vitangelo Moscarda para nos relembrarmos da força de uma personagem no curso da sua própria história.
 
Eileen Dunlop é uma dessas personagens inesquecíveis pela sua estranheza, particularidades que não lembram ao Diabo e, acima de qualquer coisa, pela sua atroz necessidade de ser amada, adorada e admirada. Deseja apenas um olhar mais atento sobre a sua pessoa sem, no entanto, enganar o leitor quanto às suas compulsões e manias. Quem ama, ama tudo.
 
Otessa Moshfegh conta-nos a história que precede o desaparecimento de Eileen Dunlop e a vida pautada por uma família ausente, um pai alcoólico (outrora polícia dedicado), uma irmã caprichosa e uma casa que se destrói na mesma medida da sua indiferença.
 
É com igual indiferença que encara o seu trabalho num centro de acolhimento de jovens sinalizados. Apaixona-se tal como respira, numa tendência obsessiva de quem procura algum alento no reflexo do outro. Randy, colega de trabalho, será essa grande paixão, até ao dia em que Rebecca, a psicóloga recentemente contratada, lhe mudará o curso de uma vida que já se adivinhava distorcida.
 
O encantamento em torno daquela mulher seria demarcado pelos seus próprios receios. Rebecca era tudo o que Eileen desejava para si mesma: era sensível, bonita, subtil e caprichosa.
Quando Rebecca lhe cede a atenção que sempre desejou de alguém, começa a percecionar a vida com mais alento, com uma quase felicidade nunca então conhecida.
 
É com base nessa amizade que a vida de Eileen conhecerá a viragem que, de certa forma, tanto esperou. As desilusões somam-se na vida de uma rapariga sombria, mas que nem assim, a faz desistir de sonhar por um amanhã diferente.

Ao leitor caberá a tarefa de compreender. Não se deixe convencer pelas manias de uma jovem receosa e insegura. Por mais descabidas que possam ser as atitudes de Eileen, no fundo, o apelo de quem reclama uma atenção nunca tida prevalece, culminando num desaparecimento esperado mas cujos contornos nem ela os poderia imaginar.

Conheça a história de Eileen. Mais do que uma jovem desamparada, o leitor perceberá o quanto o desejo de amor nos pode transformar, imprimindo a necessidade de nos reinventarmos em cenários que acabam, forçosamente, por nos transformar para sempre.



Com o apoio (bem haja!):

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Os segredos que nunca nos contaram (Albert Espinosa)







Hoje venho falar-vos de um livro diferente. Diferente na apresentação e, sobretudo, no seu propósito.
Albert Espinosa, além de um autor bestseller, é também ator, diretor, argumentista e engenheiro industrial. Em «Os Segredos que nunca nos contaram» vem partilhar com os leitores a sua experiência pessoal de superação, particularmente, após a morte do seu pai.
 
Mais do que um livro, o autor acredita que a leitura do mesmo será feita mediante a experiência pessoal de cada um. É, portanto, necessária a inspiração única do leitor para que, no fim, todas as mensagens e inspirações façam sentido e cheguem ao destino certo.
 
Dividido em três partes, seremos conduzidos a uma espécie de autoanálise (inspiradora) através de segredos contados e que nos prometem felicidade, além de (outros) importantes segredos para se viver neste mundo e, por último, poderá conhecer e descobrir o que é isso de «tesouras suaves».
 
O mais cético leitor estará, certamente, a torcer o nariz neste momento. Atrevo-me e vou dizer que, como tantos outros, não deixa de ser um atira-bolas. Não sabe o que isso é? Então leia e, mais tarde, atreva-se a contradizer-me.
 
Baseado nas grandes premissas que deveriam constituir a vida, o autor apela a uma maior concentração de si para si e de si para os outros. No final de contas, o mais importante caberá na palma da sua mão e nas memórias construídas por dias, aparentemente, fugazes.
 
Aqui entre nós, de fugazes nada têm.
Atreva-se a viver.
Atreva-se a desfrutar.
Atreva-se a ser feliz.
 
 
"A vida é aquilo que passa, enquanto fazemos planos."
John Lennon
 
Sempre grata:
 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Feelings


Muitas vezes as coisas que nos tocam mais são
aquelas que na altura em que estão a acontecer nem nos apercebemos.
António Lobo Antunes

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Certezas


Numa noite de Inverno, sentados no sofá, o menino (na altura, com dois anos) corta o silêncio, dizendo:
"Eu sou um homem!"

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Contos de Assis #2

Em «Uma Senhora», Machado de Assis conta-nos a história de D. Camila, reconhecida em qualquer lugar pela beleza, inconfundível, que lhe pertence.
Os dias, semanas e meses que vão passando assumem-se numa afronta traduzida pelos seus primeiros cabelos brancos. O tempo passa e a beleza, essa, compromete-se entre um passado seguro e um futuro que se desconhece. Precisamente pelo desconhecimento, torna-se sombrio e temido.
Ao longo deste pequeno conto, Machado de Assis, no seu estilo inconfundível, sublinha essa necessidade de nos sentirmos belos aos olhos do mundo, através de uma beleza que é garantida pela firmeza das peles, pelo brilho dos olhos, por cabelos negros e sedosos.
D. Camila vive, assim, nesse confronto com a idade, o crescimento da sua própria filha e a vida que acontece, sem dó nem piedade.
Foi Franz Kafka a defender que quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.
Machado de Assis, com esta senhora, exalta essa máxima. Afinal, é possível ver uma beleza que, à partida, nada nem ninguém a garantia. São as somas das mais diferentes belezas de uma mulher que, independentemente do tempo que corre, lhe garantem esse brilho irrevogável. Eterno.
 
 
_ _ _
 
Com o apoio:
 
 
 

Ao som de: José González


quarta-feira, 7 de junho de 2017

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Eu quero


"Pronto. Eu quero."
"E queres o quê?"
"Quero que ele seja
o meu namorado!"


Verbalizar é meio caminho andado para tudo.
O amor é a coisa mais maravilhosa do mundo.
Na infância, na adolescência, onde quer que o ponham.

domingo, 4 de junho de 2017

Desaparecidos (Caroline Eriksson)













«Desaparecidos» é o primeiro thriller de suspense da autora Caroline Eriksson. Os seus primeiros livros foram baseados em casos reais de assassinatos na Suécia.
 
A história de «Desaparecidos» poderia também, e infelizmente, basear-se numa história real. Esta começa quando uma mulher, Greta, percebe que o seu marido, Alex, e a sua filha, Smilla, desapareceram na ilha no meio do lago Maran.
 
Os pilares da história estão arquitetados mas, agora, esqueça tudo o que eu lhe disse porque a Greta não tem marido nem filha. Surpreendido? Claro que sim.
 
Impostora. Lunática. Vadia. Chame-lhe o que quiser, nessa tendência tão humana ao julgamento fácil. Pode ser isso tudo, pode não ser nada disso. Greta é uma mulher como tantas outras e, como tantas mais, vive na sombra de um passado que lhe moldou a forma de viver o presente e o futuro.
 
Não é minha intenção desbravar consigo mais pormenores desta história. Deve ler, como tantas vezes o digo, sem qualquer arnês. Aí, poderá julgar como eu fiz: com conhecimento de causa.
 
A história de Caroline Eriksson retrata um conjunto de mulheres frágeis emocionalmente e todo o resvalar, esperado, dessa mesma fragilidade. Obviamente, nessa fragilidade cabe um homem igualmente perturbado. Estão assim reunidas as condições mais tristes e lamentáveis na busca, tão irrisória, daquilo que julgam ser amor.
 
Dizem que amar se reveste da importância maior na vida de alguém. Caminhemos em direção a esse amor redentor que nos salvará dos demónios escondidos na gaveta, no armário, na casa inteira. Todas as mulheres desta história carregam essa ilusão esburacada.
Se há uma nota a retirar desta história é, indubitavelmente, o quanto a miséria emocional nos pode enterrar, dia após dia, em esperanças vãs de uma salvação por mãos de terceiros.
 
Ao som de: X Ambassadors
 
 
 
 
Esta leitura contou com o estimado apoio:
 

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Emoções

 
 
;)

sábado, 27 de maio de 2017

Romão e Juliana (Mário Zambujal)











Mário Zambujal, num estilo tão seu, é um daqueles escritores que jamais desiludem.
Em «Romão e Juliana», no seu jeito inconfundível a misturar comédia e tragédia, vivemos um amor (aparentemente) sem limites, qual Romeu e Julieta.
 
As famílias de Juliana e Romão, inimigos de longa data, jamais poderiam imaginar ou conceber a ideia de um Valebranco com um Pontefina. Sempre me disseram que o amor tem um afinado sentido de oportunidade, aparecendo nos lugares e nas horas mais inesperadas.
 
Foi assim com a Juliana, que num incêndio, conhece Romão e por ele, incendeia também o seu coração assolado. Estaria, assim, o cenário criado à maior tragédia que só o amor pode provocar.
 
Furiosos pela saudade vitalícia, o casal corre perigos, salta muros e rouba beijos um ao outro na pressa das noites que passam velozes de mais.
Até ao dia em que tudo, repentinamente, parece mudar pela obra dos dias, já cansados e desesperados, quem sabe. Força das circunstâncias?
Poderá o amor sobreviver sem obstáculos ou, quiçá, sejam aqueles o seu maior motor de sobrevivência?
 
Mário Zambujal escreve com uma ironia brilhante.
Sempre fiel ao seu estilo narrativo, o autor lança achas a uma fogueira de que, atualmente, muito se fala. Estará o amor, também, em vias de extinção na perspetiva única de um futuro instantâneo e prazeres vagos como a noite? Dá que pensar.
Irónico, mas tão certeiro, vai levar o leitor a olhar para dentro e a questionar-se. Esse é o primeiro passo para que a vida se forre de mais sentido, sobretudo, nestes dias velozes que apagam o essencial priorizando a leveza, essa tal leveza do momento.
 
 
Ao som de: Damien Rice

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O deslumbre de Cecilia Fluss (João Tordo)

 
Fecha-se, assim, com chave de ouro, uma das melhores trilogias que já tive oportunidade de ler.
 
João Tordo figura, sem reservas, como um dos autores portugueses a reclamar todas as atenções e deslumbres de leitores exigentes.
 
Esta história conduz-nos e confronta-nos com um conjunto de personagens perdidas em si mesmas. Se nos livros anteriores a indiferença, a sensação de perda e culpa eram temas gritantes, em «O deslumbre de Cecília Fluss» tudo se mantém mas na sombra, eu diria figurada, da demência.
 
"O que eu quero dizer com isto é que, para os cães, o passado não existe, pelo menos da maneira que existe para nós - uma história carregada de medo, de angústia, de ressentimento, de dor, entidade viva que transportamos connosco." p.121
 
Esta é a história de Matias Fluss, adolescente carregado com as preocupações típicas dessa idade. Há o sexo que espera urgente, amizades que se consolidem, um tio enlouquecido que admira, a família que parece toldar-lhe os movimentos. Surgem as fábulas budistas, inspiradas pelo professor, numa tentativa simultânea de ausência e procura de si mesmo.
 
A história de João Tordo é belíssima. Neste último livro fecha um ciclo sobre pessoas enterradas numa caixa de Pandora, revelada antes do tempo. Quem nunca se sentiu perdido, desfocado ou diminuído no reflexo de alguém? Quem nunca?
 
É Cecília quem nela carrega a visão turva, e sempre condicionada, de Matias. A relação destes irmãos ditará o futuro de cada um deles, pautado, sempre, pela dor de uma ausência ridiculamente imposta por um destino, quase sempre, traiçoeiro.
 
Porque não esquecer, então?
Porque não, afetuosamente, guardar para si toda uma história até que a demência vença por si mesma?
 
"Temos tanto medo porque achamos que há muito a perder, mas não é assim tanto, as coisas que achamos que nos trazem a felicidade também nos trazem o contrário da felicidade, que é a terrível angústia de nos faltarem." p.177
 
No peso da saudade, da dúvida, de avanços, de retrocessos e de identificações, Matias perdeu-se e fechou-se em si mesmo no vazio que Cecília lhe vendeu, ao decidir desaparecer.
Mais tarde, essa perda gradual surgiria no fio incerto, mas claro, que só o tio Elias lhe poderia garantir.
 
"Toda a gente precisa de um lugar onde transformar a sua dor."
 
Esse lugar seria a ausência palpável do que foi, do que não foi e do que a memória, um dia, decidir de vez apagar. Como as térmitas, subtis, a escarafunchar a madeira.
Mais do que uma história de amor, perda e saudade, a trilogia de João Tordo interroga sobre a força de um coração assolapado, as diretrizes e as jornadas a que nos impele, diariamente, por respostas que acalmem. Se as vamos encontrar, aparentemente, só o tempo e o que fizermos dele, dirá. 
"(...) quando o final, inelutavelmente, chegar, tudo mergulhe numa abençoada vertigem e um sorriso trocista assome aos nossos lábios e possamos saber, finalmente, que se esgotaram as existências, que tudo é sagrado, o que foi feito foi feito, nada a pôr, nada a tirar, e será então que poderemos, finalmente, acolher a imundície humana e a insuportável beleza deste mundo como acolhemos o cálice de uma flor que sabemos morta de antemão, mas que sangra, porque está viva, porque está morta, porque está viva." p.333
 
Ao som de: "Daughter"
 
Obrigada Penguin Random House
 

domingo, 21 de maio de 2017

Psicologia(s) #10

sábado, 13 de maio de 2017

O Sul seguido de Bene (Adelaida García Morales)
















«O Sul seguido de Bene» de Adelaida García Morales, lançado em Portugal pela Relógio d'Água Editores, reúne duas pequenas novelas, «O Sul» e «Bene».
Em ambas as novelas a ausência de um alguém prevalece. Sabemos de antemão como a ausência se sente no peso de uma saudade vitalícia, palpável, que faz adoecer.
 
Na primeira novela, «O Sul», a ausência de um pai e, do outro lado, a filha que, pelo silêncio dos seus gestos aflitos, lhe roga presença, apoio, validação.
Esta novela é tão linda. A simplicidade da escrita conta-nos como só o amor deve ser. Simples, tão genuíno que se transforma numa dor calma, resignada de quem sabe amar tudo, independentemente do (quase) nada que lhe destinam.
Deixem-me repetir o quanto esta novela é belíssima, por tudo. A ausência do pai, a filha que aprenderá a reconsiderar cada gesto ao lado de um homem, que com segredos no nome, acabou por lhe ensinar a amar da maneira mais bonita.
Essa maneira de amar é, sem sombra de qualquer dúvida, nada esperar em troca.
 
Em «Bene», no mesmo registo de ausências bem demarcadas, vive-se uma atmosfera quase fantástica sobre uma mulher, uma menina e o seu irmão, Santiago.
Desde o medo atroz em perder os lugares conquistados, de irmã capaz e bondosa, aos amores doentios e desajustados, esta novela de Morales assume um caminho diferente, inesperado, a merecer a atenção pelo confronto com a morte, com a dor, com a incapacidade de se saber lidar com o que não poderemos ter, jamais.
 
 
 
Sobre «O Sul» Ángel Fernández-Santos disse: "O Sul é uma das narrativas de amor mais originais na sua poderosa simplicidade".
 
Faça um favor a si mesmo e não deixe de o ler.
 
 
 
Muito grata à Relógio d'Água Editores por um livro que se tornou vitalício.
 
 
 
Ao som de:
Bon Iver

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Palavras mal colocadas #8

 
Entre alucinações, delírios, fala desorganizada e comportamento catatónico, eu não consigo compreender algumas aplicações desta palavra, como no exemplo que se segue:


"Este documento é esquizofrénico"

Sem comentários.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

leite e mel (rupi kaur)

O primeiro livro de rupi kaur brinda-nos com um conjunto muito cuidado de poesias sobre o amor, o abuso, a perda e outros temas que, diluídos, se podem misturar naqueles primeiros. Basicamente, a poesia de rupi kaur fala do amor e das suas inevitáveis ramificações, não necessariamente felizes, mas com promessas de uma cura.
 
Nem sempre é fácil concordar com tudo aquilo que nos entra pelos olhos adentro. Há aqui poesias belíssimas, outras, que nos provocam a língua, a querer contrapor. Acredito que o objetivo maior da poesia, mais do que sensibilizar para a beleza da palavra, da fonética e tudo o que mais se lhe reveste, é provocar - nos mais diversos sentidos - quem decidiu ler.
 
Eu li. E decidi que vale a pena desafiar outros leitores a sentirem-se provocados pelas palavras de rupi kaur. Ela sentiu a poesia como fonte de cura, de validação e sobrevivência.
Se não tem alma pequena, acredito que valerá a pena.
 
Boas leituras.

sábado, 6 de maio de 2017

Viajante à Luz da Lua (Antal Szerb)


















«Viajante à Luz da Lua» de Antal Szerb é um dos grandes clássicos da literatura húngara, recentemente publicado em Portugal pela Guerra & Paz Editores.
Publicado em 1937, este livro retrata a história de Mihály, um homem de negócios de Budapeste, mas cuja responsabilidade, esperada pela idade que não assume, é coisa com a qual se confronta diariamente num conflito a que só os desafortunados de coração conseguem perceber.
 
Mihály não se assume enquanto homem que deve, tal como os outros, prosperar, crescer e ser cada vez maior. Parece que tal incumbência não lhe está nem no sangue, e muito menos, nas ações que se mantêm, sempre, na sombra de uma adolescência inacabada.

Ele larga tudo, a vida de outrora, a mulher com quem casou e viaja em lua-de-mel, rumando sem destino por uma Itália repleta de promessas antigas.
 
Há uma frase de Marcel Proust que retrata, na perfeição, essa inquietude de Mihály, cansativa, pesada e que atormenta:
 
"A maioria dos homens gasta a melhor
parte da vida a tornar a outra miserável."
 
Não consigo definir melhor a vida deste homem, que sempre se sentiu no lugar errado à hora errada, com intenções e desejos escondidos por uma cobardia congénita.
A adolescência é muito demarcada na história de Szerb, como alavanca daquilo a que alguém se pode vir a tornar, como um esquisso daquilo que será.
Para Mihály, com base numa adolescência repleta de magia, fantasmas palpáveis, amizades inquestionáveis e um amor eterno, intocável, decidiu estagnar em si mesmo, numa tentativa infantil de permanecer no único lugar que o validava.
 
Esta é uma história capaz de lhe arrancar alguns risos, mas é sobretudo uma história sobre o passado, sobre a adolescência e o poder daquela em transformar cada passo dado. Uma necessidade bem demarcada em pertencer, tão somente pertencer para que, um dia mais tarde, a sua passagem pela vida possa tecer-se de algum significado.
 
O seu significado maior tinha nome de Éva e tal como na história do paraíso perdido, algo se prendeu na garganta de um homem que amou mal, cresceu mal, viveu mal.
 
Leia este livro sem qualquer arnês. Não precisa de saber muito mais de uma história cuja amizade, amor e adolescência se juntam para, cruelmente, formar a base de perdição de um homem que, fruto de um passado idealizado, decide viver apenas para dentro.
 
Mihály só precisava de esperança.
A adolescência é feita de armários à medida de quem foge em sonhos sem nome.
Mais cedo, ou mais tarde, porém, este homem terá de crescer.
 
 
Eu já li e descobri. E você, vai ler?
 
 
 
Bem haja, Guerra & Paz, pela oferta.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

A ler Antal Szerb


 
"(...) Amo-te porque me pertences,
amava-a porque não me pertencia,
o amor que sinto por ti dá-me confiança, segurança e força,
o amor que sentia por ela humilhava e aniquilava-me..."
 
In "Viajante à Luz da Lua"
 
 
A roer-me para não fazer comentários sarcásticos.
Acho que acabei de o fazer.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Palavras mal colocadas #7


"Olha, hoje não sei se poderei ir ter contigo..."
"Whatever!"
 
É que já nem consigo dissertar mais sobre o quanto esta expressão (?!) me enerva e me acrescenta uma ruga aqui, e ali.